Montevideo, 1992, Uruguay American School
Em un começo, criei uma personalidade contra fóbica. Tudo o que eu fazia era reagir de uma maneira em que eu
dava medo antes de
ter medo. Eu batia nos meninos que reclamavan chorando e faziam birra por algo que me parecesse sem sentido, eu comia de tudo, nao chorava por tudo, cagava na hora certa, fazia xixi na hora certa, passeava com o motorista, ia com a babá, ia com a mamae, passeava com o motorista, ia com a babá, ia com a mamae, e dormia. Dormia como um anjo, sem essas bobeiras de acordar de madrugada, nao dormir de tarde...
E já começei a gostar dos meninos desde cedo. Com tres anos me lembro do flash mais antigo em que meu coraçao e cabeça jah discutiam entre si. A sensaçao vem perfeito quando lembro da entrada da casa, o jardinzinho. Mamae dando oi pra os pais dele, e eu soh olhei pra ele e é como se ele jah soubesse o que eu queria, quem eu era. E as vozes “polite” no fundo eram quase inaudiveis quando o olhar dele me convida pra entrar. E me rastejando de uma maneira bem linda, suponho, o flash acaba aih. Com o hall de entrada de madeira, e logo a direita a sala onde suponho que eu brincaria com o Mathias.
Tinha o Conrado tambem, mas esse soh lembro em uma fila pra ir em algum lugar, ele na minha frente, alguem atras de mim me empurrou, e bati o dente na cabeça dele, e o dente caiu!... e claro por fotos, mas acho que eu achava ele meio metido.
Onde eu quero chegar é que eu naum tenho todos os fatos en ordem cronologica na cabeça. Gostaria de lembrar quando a fóbica começou a sobrepassar a contra fóbica. Depois dessas lembranças, adjuntando a da rampa - que sinto que desde essa epoca eu já era super educada e já achava que tinha algo seriamente errado com todo mundo (nao comigo..) - teria que transportarme pra Sao Paulo, 1993, O Mágico de Oz (“já viu o filme?” nao! Nunca...) foi minha escola...
As cenas foram, minha professora de ingles, DEUS! Como ela falava mal inglês. Eu tinha 4 anos e fui alfabetizada em español e inglês, e eu falava melhor
português do que ela, professora de inglês, falava inglês... Vai entender a incongruência.
Sei que eu gostava do meu uniforme, lembro de dias de chuva, o dia da formatura, que fiz um quadro com minhas maos verdes e vermelhas, e dei pra minha mae. Sei tambem que tinha uma piscina de azulejos verdes no apartamento e que no natal ganhei uma boneca que andava de patins e eu podia grudar uns brilhos de velcro no cabelo dela.
E que teve o aniversario do Joao Luis, amigo do fre, que tinha irmas gemeas, e ele era horrivel, comia a propria meleca, gordo... mas só pelo fato de ser homem, mexia comigo. Ele falava comigo e eu lembro que
eu fazia todo um jogo de seduçao, que claro, desde esse entao como primeira frustraçao nesse sentido, já sentia que ele nao entendia nada, nem sentia a vibe que eu tentava mandar.
Tambem sei que foi onde cortei minha barriga na gaveta (?). nao sei explicar, pra mim tinha aquelas serrinhas de cortar papel aluminio, mas sei que mamae fez um curativo beeem grande. E, por primeira vez lembro de que eu chorei pra chamar atençao, e nao porque doeu.
Primeiro indício do fóbico. Um contra fobico nunca teria chorado de birra. Eu batia em quem fazia birra...
Já tinha começado a me tranformar em alguem com o prototipo que eu repudiava.
Sei que morei em dois apartamentos, e consigo diferenciar esse primeiro do azulejo verde na piscina da terraça, com o que o papai fazia baguette com mostarda. Tinha um cavalo de carrocel irado, e eu cantava “meu pintinho amarelinho” na sala com o maldito pinto na mao...
Que é o mesmo apartamento onde eu escutava “Five golden rings, four colin birds, three french hands, two tourtle doves and a party ginger pear tree”, e a Jú contou que o amigo do chico Ryan tinha feito coco na calça, rindo e eu falei “serio? Porque?.. mas nao ri...tadinho”. (Eu já defendia os “mais fracos”, desde esse entao.)
Tambem foi onde eu começei a dormir em um beliche com o Fre, em outro quarto. E esse quarto novo eu tinha meio medo. Entao fugia pra o quarto da Jú e da Rô, e dormia lá.
Foi o mesmo quarto que por primeira vez lembro do Luis brincando comigo e com o Frê, de LEGO. E o mesmo quarto que mais tarde, ganhei 30 reais. Por um dente!
Nesse mesmo apartamento, eu ganhei meu triciclo irado, preto de plastico que andava na garagem do predio. E quando deram pra o Adelson, eu odiei, e fiquei muito brava.
Tambem primeira vez que lembro da Fifefa, conversando com a mamae em uma madrugada na sala. Ela chegou de viagem super de noite, e ficaram conversando ai.
Mudando pra Campinas, 1995 Colégio O Sagrado Coraçao de Jesus, primeira coisa que fizemos foi matricularnos na escola, logo depois passamos na papelaria com aquela lista gigante de materiais escolares, que se gastam verdadeiras fortunas nessas coisas (Jambo que o diga), e eu comprei meu primeiro Sticker Album, preto, com um urso marrom que faz ballet, e tenho ele até hoje. Uma das coisas que tinha perdido e fiz um pedido de 1000 pulinhos pra Sao Longuinho que me ajudasse a procurar, e avisar aos doendes que devolvessem porque nao tinha graça alguma. Já que era algo significativo...
[A ideia de um album de figurinhas é que você vá comprando e trocando com suas amigas, pelos que goste, e renovando seu album... USANDO os stickers em cartinhas e tal... mas eu nunca troquei sequer um, e nunca usei. Até um momento em que já nao me importavam mais stickers, guardei, e as vezes em uma etapa dessas que eu revejo minhas caixas do passado, eu acabo usando um ou outro pra exercitar meu desapego e dar alguma utilidade a essa energia estancada, tentando me sentir feliz em fazer o que se deveria fazer...]
Mas voltando as lembranças de Campinas que começam a nao ser tao remotas, e começo a me perder na ordem dos fatores. Vamos ver se altera o resultado...
Sei que a Andréia é uma das pessoas que conheci primeiro, era minha vizinha e a Jú logo ficou amiga da Regina, babá da Andréia... a gente brincava de bichinho pela varanda, ela na do quarto dos pais dela, eu na do quarto dos meus pais, ou da minha mae só. (nao lembro mto mais de ver meu pai zanzando por ai)... Ela era da idade do Frê e estudava com ele. Acho que gostava dele...
Lembro de roubar as 11 horas de algum vizinho e plantar na casa nova... antes que ela fosse azul, e ante de ter piscina. E que comia sempre Pizza Hut, e que tinha o lelê. Lembro do Parque Ecológico, de andar de moto com o Nando, namorado da Adriana, irma da Andréia... lembro que eu tinha uma leve queda por ele, ele até hoje me faz lembrar um ator brasileiro...
Se eu me lembro bem de quando ele me levou pra andar de moto, ele tambem retribuia meu olhar, mas quando penso que eu tinha seilá... 7 anos e ele tinha 21, é ridícula a sensaçao que fica...
Eu lembro na escola que fazia nataçao e ginastica olimpica, e que sempre fazia as apresentaçoes de final de ano. Eu era boa nessas coisas, só nao tao boa como o Fre.
Lembro de um Dia dos Pais que o papai foi na escola e a gente aprendeu a fazer pipa, no campo de futebol... lembro das olimpiadas, e que eu era o time Vermelho.
Lembro que eu gostei do Lincon, depois de ser namorada do Nicola. Lembro que fui na casa do Nicola e o Fre e o irmao dele falavam pra a gente se beijar embaixo da agua, e que depois eu fui tomar banho, e imaginei que ele ia tomar banho comigo. Mas foi soh imaginaçao.
Depois na sala dele a gente fico pulando no sofá cantando “Quanta geeeenteeeiiiieee, quantaaaalegria! A minha felicidade é um crediario nas casas bahiaaaaa!!!” até que vieram buscar eu e o Fre.
Nao lembro de terminar com ele, e nem nada disso, sei que mudei de classe, e o Lincon foi a proxima vitima. Mas nunca passou ao passo numero dois: Falar. Fiquei só no passo Olhar...
Em seguida mudei de classe de novo, que foi quando fiz meu primeiro grupo das Meninas... as integrantes eram Mariana, Maria Julia, Rebeca, Isadora e eu. A Mari era magra, feia, branca, de cabelo preto, e a mais inteligente. Maria Julia era a moreninha de olhos cor de mel, super bonita e madura, sabia falar super bem, e nao tinha vergonha. Rebeca era a gordinha que tinha evoluido extremamente cedo, tinha o seio mais grande que eu já tinha visto em alguem da minha idade. E eu lembro que consolei alguma vez que ela chorou que zuaram ela, e desde essa época já era fazerdora da Paz, e metida a psicologa. Eu senti como se ela realmente tivesse se acalmado.
E a Isadora era meio macho, parecia uma velha, nao faço idéia do que a mae dela fazia com o cabelo dela mas era muuuito engraçada, e tinha os olhos constantemente fechados como se tivesse rindo sempre.
Eu sempre observava as meninas mais velhas, que faziam ginastica olimpica comigo, a maneira como se vestiam, e tentava copiar. Aquelas meias grossas brancas, por cima da calça cinza. Horrivel! E o moletom sempre amarrado na bunda, bem embaixo, que aparecesse o rego (com a calça)... Já começei a me espelhar fora, buscar aprovaçao externa, comparar-me, competir.
Pulava elastico com as meninas e tinha medo das aulas na capela. Já nao gostava nada dessa coisa de Religiao. O Frê quis fazer Primeira Comunhao, eu nao.
Tinha uma arvore no bosque da escola, que soltava umas sementes que se você pisava nelas, elas soltavam um cheiro horrivel!!! E tinha uma arvore de amora que eu subia e comia muito... ficava perto da avenida.
Tambem brinquei de Policia e Ladrao, fiz coleçao de joaninha que encontrava na horta da escola, e tive que desenhar uma arvore esse dia. Lembro que comparava já, meus desenhos com as outras pessoas, e já era super exigente comigo mesma...
Lembro de uma das apresentaçoes de final de ano com a musica do "2001 uma odisseia no espaço", eu tinha um colant tao apertado que quando dei a estrela enfiou na minha bunda, e eu parei na coreografia pra arrumar. Um belo de um resgate na frente de um grupo de meninos que começaram a rir.
Raiva, eu senti. E depois me senti idiota. Porque lembrei que eu que tinha chupado o ar, e dado uma de magrinha quando veio a mulher costureira tirar a medida do collant. Burra.
Tudo bem, eu era fortinha, como costumava escutar, mas nao gorda, como tambem costumei escutar mais que algumas vezes.
Lembro de uma vez que subi no muro com os Meninos, e a gente começou a bater papo com os vizinhos de tras, e eles convidaram a gente pra ir nadar lá. Eram dois meninos, e os pais. A gente foi e aprendi a “escorregar” na borda da piscina. Foi muito divertido. Lembro que eu nunca parei de escorregar até a hora de ir embora.
Lembro de todas as idas na fazenda, do coco maduga, xixi maglat e melequex. Lembro dos besouros, do galinheiro de manha, do Tio Flavio.
Lembro da filha de algum caseiro que quase me mata afogada, porque nao sabia nadar, e me empurrou pra o fundo da piscina, porque
eu idiota quis mostrar que era seguro nadar sem pé, pra que ela confiasse. Tambem lembro que a vovó me fez jogar fora meu maiô que tinha emprestado pra ela dizendo “vai saber o que essa menina tem” e eu fiz cara de que nao entendi, ela olhou pra mim e disse arregalando os olhos “na xixa!”. Respondi “eca” e nunca mais toquei no assunto. Lembro do pomar, das aranhas. E de poucas vezes que o papai foi. Mas quando ele foi, a gente foi vizitar o fifafo, e era legal a casa dele porque tinha aquele coiso de ferrinhos que marcam seu rosto quando coloca na cara, fica o molde. Alem de ter todos os chocalhos das cobras que ele matava, e de ter o Clayde. A Boni era meio bravona, entao eu nem me liguei muito nela.
Lembro que começei a gostar de fingir que tava dormindo, nao entendo ainda porque, sei que fingia e mantinha, até que a pessoa ia embora.
Lembro que vi o saco do fifafo e depois falei que parecia saco de boi. Era o maior que eu tinha visto. Bem de que ainda nao tinha muito tabu ou noçao de éticas como "nao se diz esse tipo de coisa" ou "se finge que nao viu nada, e sai."
Adorava os bolos da vó Erlette. E roubava os Maraboo da vovó que eu sabia onde ela escondia no armario dela.
Tambem amei tomar banho na banheira do banheiro dela, que ela só deixou uma vez. E odiei quando ela tirou meus dentes a força, ao mesmo tempo. Dentes foram um sofrimento...
TO BE CONTINUED.